A influência das pessoas na transformação da paisagem começou há cerca de 7000 anos com a chegada dos primeiros pastores e a criação de pastagens e campos de centeio. Até lá os caçadores-recolectores viviam em harmonia com o que a Natureza lhes fornecia, e a paisagem era composta por extensas florestas de folhosas, sobretudo carvalhos, intercalada com pastagens naturais, sendo os matos residuais pois evoluiriam rapidamente para floresta. Uma paisagem biodiversa e resistente a incêndios, que seriam esporadicamente causados por trovoadas mas sem grande violência pela baixa combustibilidade presente. A introdução de novos elementos antrópicos (expansão das pastagens e matos, e criação de campos de centeio) foi benéfica para certas espécies na medida em que criou condições para a sua expansão, estabelecendo-se um certo equilíbrio que se manteve ao longo de milénios. Contudo, certos momentos da história levaram a que a pressão humana aumentasse comprometendo esse equilíbrio, por exemplo o abate de árvores para a criação da frota naval na época dos Descobrimentos, ou o aumento exponencial da população após a Revolução Industrial. Na Serra da Estrela isto levou ao desaparecimento quase total da floresta nativa e de muitas espécies da fauna, e à degradação dos solos devido ao sobrepastoreio e aos métodos modernos de agricultura com recurso a químicos e maquinaria pesada. Mais recentemente a globalização e o êxodo rural fizeram com que os terrenos seguissem o curso da sucessão ecológica, com a colonização das terras por matos. Não havendo árvores que fornecessem semente para o habitat evoluir para floresta nem herbivoria suficiente, assistimos a um grande acumular de matéria lenhosa fina sintoma de um ecossistema em desequilíbrio, e cujo destino natural é a eliminação pelo fogo. Uma falta de relação com e/ou valorização da floresta autóctone e da biodiversidade nativa no geral também faz com que o interesse na reversão para uma situação mais próxima do “pristino” não seja atraente economicamente e culturalmente. Segue-se uma lista do que estamos a fazer para reverter esta situação e recuperar os ecossistemas naturais:
- Utilizamos e divulgamos as plantas e fungos espontâneos na alimentação como forma de reconectar com a Natureza, valorizar as espécies autóctones e os ecossistemas naturais aos olhos da sociedade e diminuir a dependência dos sistemas agrícolas, abraçando a filosofia “Rewilding” para a cura de pessoas e Natureza.


- Adoptamos técnicas de restauro passivo de ecossistemas tais como a proteção da regeneração natural, a sementeira directa de sementes recolhidas localmente e a criação de núcleos de árvores mães com ênfase nas espécies pioneiras locais e respeitando sempre os ciclos de sucessão ecológica, com vista a ajudar o sistema a evoluir mais rapidamente para a etapa final – uma floresta madura de folhosas autóctones.


- Criámos um mosaico paisagístico benéfico para inúmeras espécies e para o aumento da resistência ao fogo através do destroçamento de matos, que são agora pastagens herbáceas em recuperação com a ajuda do pastoreio rotativo pelas ovelhas.


